Obrigada, Pingo.

A raça humana ainda tem muito a aprender com os animais. Entre as muitas lições, no meu ponto de vista, resiliência e lealdade estão entre as mais evidentes. Por que digo isso? Porque nessa semana eu perdi o Pingo, companheiro que encheu a casa da minha família de amor por mais de dezesseis anos.

O Pingo foi abandonado pelos primeiros donos. O ex-dono o levou para um matagal, deu-lhe uma paulada na cabeça e voltou pra casa. No dia seguinte, o Pingo estava lá, na frente da casa de novo, provavelmente achando que aquilo que tinha ocorrido no dia anterior tivesse sido alguma brincadeira estranha. Pra não se dar o trabalho de torturar o bichinho fisicamente, esse senhor apelou para a tortura psicológica: simplesmente não o deixou mais passar nem pelo portão da frente.

E ali o Pingo ficou por dias. Esperando. Quando os vizinhos souberam da história, passaram a oferecer um pouco de água, comida, mas nunca um abrigo. Assim, ele começou a vagar pelas ruas da cidade e se tornou conhecido das pessoas no comércio do centro. Minha casa era no Centro. E um certo dia meus pais pegaram a Sônia, que trabalhava com a gente, dando comida pro cusquinho. Ela acabou confessando que fazia isso há tempos, sempre nos mesmos horários: perto do meio-dia ele chegava, sentava e ficava ali esperando o almoço.

E assim foi por uns dois anos. Ele seguia meu pai pra cima e pra baixo, o esperava na porta do consultório, até que ganhou o coração do meu velho e passou a comer dentro de casa. Mas o mais incrível é que o Pingo não queria dormir numa caminha fofa. Vinha só pra pedir comida e já saía de novo. Ficou acostumado com a rua. Ele também pedia socorro: foi atropelado, levou tiros de chumbinho e foi posto em uma rinha de pitbulls por alguma pessoa desprovida de alma e, todas essas vezes, foi pra gente que ele sinalizou ajuda.

Durante cinco anos foi assim. Meu pai atendia os pacientes com o Pingo deitado nos pés e saía com ele de carro quando tinha que dar umas bandas. Só anos mais tarde, quando começou a ficar cansado da rua, foi que aceitou o convite pra dormir lá em casa. E foi aí que a gente teve a certeza de que ele enfim tinha nos escolhido como família.
E como amou e foi amado.
E como cuidou da gente quando um de nós não estava bem.
E como protegia as outras cachorrinhas que chegaram depois. Isso é lealdade.

Uma certa vez meu pai foi passear de carro com o moço. Quando estacionou o carro na frente de casa, o Pingo não quis descer. Então meu pai decidiu deixar ele ali, já que tinha que sair de novo depois e achou que tivesse deixado os vidros abertos. Quando retornou para o carro, viu que os vidros estavam fechados. No sol. No calor. O Pingo estava convulsionando. Meu pai entrou em choque e não conseguia parar de chorar. Tivemos sorte que conseguimos socorrê-lo. Depois do susto, quando ouviu a voz do meu pai, sabe o que ele fez? Abanou o rabinho e sorriu euforicamente. Isso é resiliência.

O único lado ruim de ter animais de estimação é ter a consciência de que eles vivem menos que a gente. Pouco, perto do que eles realmente mereciam. O suficiente pra transbordar a vida da gente de amor. E de lembranças lindas. E eu tive a sorte de ter o Pingo durante mais da metade da minha vida.

Dezesseis anos se passaram. O Pinguinho, Pingolino, Pepo, se foi dormindo, do ladinho da minha mãe. Com o rostinho virado pra ela. Como quem tivesse tido forças pra olhar pra ela e dizer um “muito obrigada, mas é minha hora”.

Chico Xavier disse: “Nós seres humanos, estamos na natureza para auxiliar o progresso dos animais, na mesma proporção que os anjos estão para nos auxiliar. Por isso, quem maltrata um animal vai contra as leis de Deus, porque Suas leis são as leis da preservação da natureza. E, com certeza, quem chuta ou maltrata um animal é alguém que ainda não aprendeu a amar”.

Tchau, meu amigo. Obrigada por tudo, Pingo.

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