A Picanha ganhou uma irmã nesse último mês aqui em casa.  A Leka é um poodle de dez anos, que meu pai comprou em uma veterinária de Camaquã em 2006. Passou, a viu em uma jaulinha de dois por dois, comendo as próprias fezes, num estado desumano. Lembro até hoje o dia. Eu estava sentada na sala, quando ele abriu a porta de casa e entrou seguido de uma bolinha de pelo branco saltitante.

Minha mãe fez cara feia, eu adorei a ideia e, por mais que brincasse e fizesse farra com aquela coisinha, era sempre dele que ela ia atrás. Anos se passaram, e os dois eram como unha e carne. Ela a sombra do meu pai pra onde ele fosse em casa. Dormia em cima da cabeça dele, esperava ele tomar banho deitadinha no tapete do banheiro, esperava pela volta do trabalho com o focinho na fresta da porta. Em 2014, quando a cardiopatia do meu pai se agravou e o debilitou gravemente, quando passava os dias e noites deitado na cama usando oxigênio, ela ali ficava, sempre. E todos temos certeza que a Leka nos ajudou a dar forças pro meu pai para aguentar a longa espera pelo transplante de coração.

Enfim o transplante veio e ele passou onze dias no isolamento do pós-operatório. A única vez que venceu a sedação e abriu aqueles olhos azuis pra mim foi quando eu falei no ouvido dele: “pai, tô cuidando bem da Lekinha, tá?”. Aquilo foi um aviso de que, se fosse melhor pra ele, que partisse sem se preocupar. Eu estaria aqui pra continuar o amor que eles criaram um pelo outro.

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Meu pai não voltou mais pra casa. E a Leka ficou na porta esperando por ele por muitos dias, numa cena desoladora, que potencializava a dor em milhões de vezes. Demorei, mas cumpri a minha promessa. Por mais que eu soubesse que a minha mãe cuidaria muito bem da Leka, era um acordo que eu tinha feito com ele.

Ela tá aqui, faceira da vida. Passeia todos os dias, recebe um amor enorme. Picanha fez as honras da casa e a recebeu muito bem (desde que, claro, não dispute comida com ela). E ainda fez do meu marido o novo paizinho dela.

Por isso, quem segue as redes sociais do blog vai ter que se acostumar a ver um algodãozinho branco nas publicações. Com vocês, a Leka, Lekinha, Bigalucha:
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Posted by:Giovanna Delfini

Jornalista, gaúcha, gremista, curiosa, teimosa, exagerada.

3 replies on “A nova (talvez nem tanto) integrante da casa

  1. “Fica sempre um pouco de perfume
    Nas mãos que oferecem rosas
    Nas mãos que sabem ser generosas
    Dar o pouco que se tem a quem tem menos ainda”
    Quando nós, humanos dotados de inteligência e discernimento, nos colocamos no lugar daqueles que são desprovidos de tal discernimento, percebemos que este possui dentro de si um amor puro e natural, capaz de nos fortalecer perante a nossa dor. Receba dela, sua Leka, o pedaço de coração que ela herdou de seu pai!

    Triste, porém linda história. Toda luz a você e aos seus!
    Andréia

    1. Ai, Andréia! Me emocionei aqui. Que coisa linda o que você escreveu. Toda vez que olho nos olhinhos dela vejo um pouco do meu pai. Muito obrigada pelo carinho, encheu meu coração de amor. ❤

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